Oitavo maior mercado consumidor de medicamentos do mundo, o Brasil já acumula um faturamento de mais de R$ 85 bilhões neste ano. Espera-se que em quatro anos alcance a quinta posição no ranking mundial. Passou do 10o lugar em 2011 para o 8o em 2016, e esse ritmo poderia ser mais expressivo, caso o país não tivesse sido afetado pelas recentes turbulências na política e na economia. Mesmo assim, o Brasil participa de pouco mais de 1% dos estudos clínicos mundiais, ocupando a 15a posição nesse ranking.
Por que isso acontece? Segundo o presidente da Interfarma, Antônio Britto, a resposta é que existe um desperdício do potencial brasileiro no setor, essencialmente pela burocracia. Nesta entrevista, Britto analisa as situações que atrapalham uma maior expressão do Brasil no panorama mundial de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos, e os prejuízos que isso traz ao país e à saúde dos pacientes.

Abradimex News – O Brasil tem potencial para participar de pesquisas e inovação de medicamentos?
Antônio Britto – Um mercado tão amplo, com mais de 200 milhões de habitantes, certamente se torna também atraente para o fomento da inovação. Não só pelo tamanho, mas por outros aspectos que favorecem a pesquisa clínica, como a diversidade étnica da população, os diferentes climas e hábitos culturais. Somos uma população não apenas rica na diversidade de voluntários em potencial para pesquisas, mas também na qualificação dos profissionais de saúde que atuam nessa área. Basta olhar mundo afora, nos grandes centros de pesquisa, sempre haverá um brasileiro bem qualificado, muitas vezes em posição de destaque, conduzindo estudos clínicos. Mas se esse contexto existe, por que estamos com pouco mais de 1% dos estudos clínicos mundiais, ocupando a 15ª posição nesse ranking, bem abaixo da expressão que alcançamos como mercado farmacêutico?
Abradimex News – O que impede o Brasil de ter uma maior participação em estudos clínicos de novos medicamentos?
AB – Um pedido de pesquisa clínica precisa ser analisado pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) acerca de seu risco sanitário e pelo sistema CEP/Conep, que verifica as questões éticas envolvidas no processo. Ambos realizam um excelente trabalho, mundialmente reconhecido por sua qualidade, e não seria correto reivindicar nada diferente disso. O problema é o tempo de análise, ora por morosidade da ANVISA, ora pela dupla validação do sistema CEP/Conep. O fato é que os estudos levam um ano para receberem um parecer, contrário ou favorável. É o dobro da média mundial. Nos Estados Unidos levam dois meses, muitos países da Europa respondem em até quatro meses.
Abradimex News – Então, a burocracia e a lentidão tiram essa oportunidade do país?
AB – Sim, os grandes estudos clínicos são multicêntricos, feitos em diversos países ao mesmo tempo. E simplesmente não dá para a indústria ter a aprovação de todos e aguardar mais seis meses para o Brasil responder. O que acontece é que o estudo é retirado do país. Assim, o paciente perde por ficar privado dos tratamentos na fase de estudos clínicos; o pesquisador perde por não poder se atualizar em seu país; o país perde investimentos em centros de pesquisas, que geram empregos, renda e novas tecnologias.
Abradimex News – Que tipo de estímulo ou política poderia incentivar o desenvolvimento de pesquisas de novos medicamentos?
AB – Criar um ambiente favorável à inovação, aos estudos clínicos, é criar um ambiente favorável à saúde, à tecnologia e à economia, com reflexos futuros na balança comercial do setor, que está em situação de déficit há muitos anos. Temos que ser competitivos, mas não melhores do que éramos ontem, pois a comparação não deve ser com o nosso passado e, sim, com os demais países. Precisamos ser tão competitivos quanto eles, caso contrário as novas tecnologias em saúde serão criadas e continuaremos dependentes das importações para ter acesso a elas. Ou as criamos, ou as compramos.
Abradimex News – Como a Interfarma enxerga o anúncio da criação de um fundo privado para financiar pesquisa e inovação? Em que medida ele poderá contribuir para a evolução da pesquisa e inovação de medicamentos?
AB – Pelos motivos citados anteriormente, toda iniciativa pró-inovação é bem-vista. Contudo, são necessárias algumas ponderações. Primeiro, uma molécula para ser criada, do início da pesquisa ao medicamento no balcão, leva dez anos e recebe em média investimentos da ordem de US$ 1,3 milhão. Todas as associadas da INTERFARMA desenvolvem pesquisas radicais, essas que criam moléculas e resultam em medicamentos de referência, e realizam enormes investimentos na área. Afinal apenas uma em cada 10 mil moléculas em média se torna um medicamento viável à população, em termos de segurança e eficácia. É uma atividade de risco. Dito isso, por mais que venha a ser positiva uma eventual iniciativa pela criação de fundos para inovação, é preciso ponderar o quanto está sendo investido para estimar os resultados que podem ser realmente alcançados.
Editora Conteúdo/Abgail Cardoso




